Recebi este vídeo de um colega pastor de uma grande igreja de outra
cidade. Embora já tivesse visto o vídeo, não quis tecer comentários por ter
achado exótico demais para comentar. Mas depois que esse colega se sentiu
incomodado com o conteúdo expresso, resolvi tecer algumas ponderações.
Não conheço pessoalmente o expositor no vídeo e como sempre faço, não
comento sobre pessoas, mas sobre ideias. Creio que existe muito boa intenção
por parte do expositor e que ele crê piamente nisso que expôs. Oro para o Senhor
use com poder nosso colega.
Ao ver o vídeo identifiquei mais de 15 afirmações que, a meu ver, vão de
encontro à Palavra e a boa teologia.
Nesta postagem, analisarei 6 pontos inciais e posteriormente o restante.
1º. O Senhor Jesus Cristo não é Senhor dos salvos, mas Senhor de todos.
R – Aqui vejo um erro elementar. Como Deus, Cristo é Senhor de toda
criação, mas como Salvador Ele é Senhor dos salvos ou da igreja. Na encarnação
e exaltação Deus o fez Senhor e Cristo, “Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem
vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. Atos
2:36.
Romanos 10:9 Se você
confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou
dentre os mortos, será salvo.
Se,
com a tua boca, confessares Jesus como Senhor. Quando o senhorio de Jesus ocupa
o recinto de forma plena, o ouvinte não pode apenas ficar pensando algo para
si, caladamente. Torna-se imprescindível emitir uma confissão, seja um não ou
até mesmo uma blasfêmia, em caso negativo, seja a confissão de reverência:
“Jesus é o Senhor” – entrego-me a ele como seu escravo (Rm
6.16)! Na confissão, portanto, não estamos apoiando opiniões religiosas, mas
reconhecemos a nova condição da humanidade e do cosmos, que obviamente também
reprogramará a própria vida. Uma confissão é uma declaração pública que desloca
o relacionamento com esse Senhor das turbulências da oscilação de sentimentos
particulares e o organiza com poderes legais. É no âmbito desse processo legal
que se requer a confissão, devendo ser pronunciada com a boca e ouvida pelos
ouvidos das testemunhas, pessoas e anjos.
Paulo encerra e define a questão de salvação com a afirmativa que
necessário se faz confessar e crer, isso implica, que na salvação a aceitação
de Cristo deve ser como Senhor e Salvador. O expositor do
vídeo induz a crer que na salvação Jesus é somente o salvador e não Senhor.
Essa dicotomia apresentada no vídeo já foi tema de debates recentes nos EUA.
Aceitamos Jesus como Salvador e Senhor.
Paulo em Rom. 1:1 nos diz: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o
evangelho de Deus”.
Notemos que a palavra “servo” o grego é “doulos” quer
dizer escravo. Os apóstolos se viam como escravos do Senhor Jesus
e é assim que devemos nos ver.
Alguns versículos importantes: Rom. 1:4,7; 4:24; 5:1; II Pe. 1:1,2,8,11;
3:8; II Jo. 1:3; Jd. 1:4 etc.
2º. O plano original de Deus nunca foi salvação, mas domínio.
R – o plano original de Deus sempre foi a salvação do homem. Foi causa
do pecado que Cristo veio a este mundo. Temos em Gn. 3:15 o chamado protoevangelho “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a
tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o
calcanhar”.
Isso aponta que desde o início da criação Deus já esboçava sua intenção
prévia de salvação.
II Tm. 1:9-10 “Que nos salvou,
e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em
Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; E
que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e
trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho”.
Em II Timóteo o apóstolo Paulo deixa bastante claro que a salvação de
Deus foi segundo seu propósito e graça e isso antes dos tempos dos séculos, ou
seja, antes da fundação do mundo conforme Ef. 1:4 “Como também nos elegeu nele antes da fundação do
mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor”.
A eleição foi planejada antes que houvesse tempo e espaço, por isso, a
vinda de Cristo foi para realizar esta eleição e ser Senhor da igreja e
Salvador. Quando Paulo disse que a salvação é manifesta agora, quer dizer que
foi executada no tempo e no espaço. A salvação estava dentro dos planos de Deus
antes que houvesse espaço/tempo e agora, nos dias de Paulo, realiza-se no
tempo/espaço. Em Gal. 4:4-5, Paulo foi muito claro sobre isso: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu
Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,
5 Para remir os que estavam
debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”.
Trato com detalhes a explicação destes versículos em uma postagem no
blog MINISTERIO FORÇA PARA VIVER -
O expositor no vídeo diz que o propósito original de Deus era o domínio
e domínio sobre as coisas, por isso, Jesus veio para reposicionar o homem para
ele torne a dominar. Esse ensino de domínio apresentado no vídeo é oriundo de
uma distorção dos ensinos dos apóstolos modernos, principalmente da International Coalition of Apostolic Leaders, na qual fazem
parte Cindy Jacobs, Valnice Milhomens, Neuza Itioca, Rony Chaves etc.
Pregam uma mensagem megalomaníaca que a igreja deve dominar as esferas
de poder no mundo. Suas profecias são astronômicas e mexem como emocional dos
ouvintes. Mas a grande verdade é que estas profecias não se cumprem.
Deus, por ser Deus, já possui o domínio sobre tudo, inclusive sobre
Satanás, que só age dentro dos limites da soberania de Deus.
Vejamos alguns textos bíblicos:
Jó 25:2 “Com ele estão domínio e temor; ele faz
paz nas suas alturas”.
Sl. 103:22 “Bendizei ao SENHOR, todas as suas obras, em todos os lugares
do seu domínio; bendize, ó minha alma, ao SENHOR”.
Etc.
O expositor no vídeo distorce Lc. 19:10 “Porque o Filho do homem
veio buscar e salvar o que se havia perdido”. O contexto de
Lc. 19:10 fala da conversão de Zaqueu. Fica claro que um texto fora do contexto
é pretexto ou heresia. Em momento algum o texto fala de resgatar o domínio
sobre a criação que Adão teve, mas fala sobre resgatar o homem que havia se
perdido por causa do pecado. A Bíblia precisa falar por si. Não podemos forçar
a Palavra dizer o que ela não disse. Uma boa hermenêutica ajuda muito nestes momentos.
A sujeição de todas as coisas não será para o homem e sim a Cristo. Ef.
1:10, 22; Filp. 3:21; Col. 1:20; Hb. 1:3; 2:8,10;
3º. O expositor no vídeo cita o Sl. 8:4, mas na realidade queria citar
8:4-6 “Que é o homem mortal para que te
lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o
fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele
tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés”.
Querendo dizer que no princípio Deus dera todo domínio ao homem na
criação e que o homem participara da criação dando nomes aos seres criados.
Vale lembrar que a afirmação do expositor que Adão participou da criação é
ambígua, pois Adão somente desempenhou a função designada pelo Criador como
gestor das coisas criadas, daí dar nomes a todos os animais criados. Adão
sempre foi servo do altíssimo e o domínio que tinha era por designação.
Quando o expositor cita o Sl. 8:4-6 afirmando que o propósito do homem na
atualidade é dominar, erra fundamentalmente, pois os autores bíblicos aplicam
este salmo a Cristo e não ao homem.
Heb. 2:7-8 “Tu o fizeste um pouco menor do que
os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de
tuas mãos; Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Vemos, porém,
coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que
os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse
a morte por todos”.
O que o autor de Hebreus quis dizer ao citar o Sl. 8:4-6?
A citação explicita dois aspectos da Cristologia: a encarnação e
exaltação. O autor de Hebreus utiliza o salmo para falar da exaltação, nas
declarações “Tu o coroaste de glória e honra”; “Todas as coisas lhe
sujeitaste debaixo dos pés”. Já a encarnação do Filho é expressa na
declaração “Tu o fizestes um pouco menor que os anjos”. Essa
solidariedade com o ser humano, o fato de assumir humanidade, tornou possível
para Cristo cumprir a intensão do Salmo. Nele (em Cristo), a plena dignidade e
o destino do ser humano encontram sua máxima expressão. Assim sendo, a
dignidade do ser humano, concedida a Adão por seu lugar no mundo, chega ao
cumprimento e à expressão final no Filho enquanto este é feito Senhor de todas
as coisas e todas as coisas são colocadas debaixo de seus pés. Aqui vale
lembrar da escatologia realizada e da escatologia
consumada, do já e do ainda não.
4º. O expositor afirmou que no céu não é eu mando você obedece, mas
façamos nós.
Muito estranho isso, pois no céu existe a vontade de Deus. Cristo na
oração do Pai nosso disse: “Seja feita a Tua vontade, assim na terra como céu”.
Em Lc. 26:53 o Senhor Jesus faz referência à prontidão dos anjos (12
legiões de anjos). Todos prontos aguardando uma só ordem. Em Apocalipse vemos
os cavaleiros e seus cavalos recebendo ordens para operar parte do juízo de
Deus no mundo. Seres espirituais aguardado uma ordem para entrarem em ação.
No céu existe ordem e vontade. Façamos nós, aplica-se somente à
Trindade. Parece que o expositor do vídeo quer colocar o homem (criatura) no
mesmo pé de igualdade do Criador. No céu o que prevalece são os propósitos de
Deus que não são questionáveis em momento algum.
5º. O expositor confunde Ef. 1:4. O texto bíblico de Efésios 1:4 (Como também nos elegeu
nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis
diante dele em amor) não fala de criação e sim de eleição. Mas o
expositor torce o texto para se encaixar em seus argumentos de que o homem não
é obra das mãos de Deus e sim do seu coração. Mas em sua exposição diz que Deus
formou o homem do pó da terra e não criou o homem do pó da terra, mas criou o
homem de dentro dele. Se assim fosse, o homem seria impecável. Aqui, formar ou
criar é a mesma coisa. Qual seria então a diferença entre criar e formar?
Aqui o expositor erra grotescamente ao atribuir a procedência do homem
da interioridade de Deus. Afirma que Deus criou o homem nEle ou diretamente
dEle. Confunde o eleger nEle com o criar nEle. Eleger nEle quer dizer em
Cristo, nos escolheu antes da fundação do mundo. Em teologia a
procedência de Deus é o Filho e o Espírito Santo. No credo de Atanásio temos a
seguinte afirmação: “O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não
feito, nem criado, nem gerado, mas procedente”. Em lugar algum da Bíblia ou
nos credos temos qualquer referência que confirme as afirmações do expositor.
6º. O expositor afirma que a salvação é pela graça, mas o reino vem por
obras. É conquistado pela força.
No evangelho de João o Senhor Jesus, no diálogo com Nicodemus, afirma: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na
verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Jo. 3:3
“Jesus respondeu: Na verdade, na
verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode
entrar no reino de Deus”. Jo. 3:5. Ou seja, sem o novo nascimento não se
entra no Reino de Deus. Neste texto de João entrar e ver o Reino é a mesma
coisa. Isso só é possível pela graça mediante a fé.
O expositor entende que o Reino de Deus é pela força, talvez fazendo
menção a Mt. 11:12 “E, desde os dias de João o Batista
até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”.
Vamos entender este texto e ver onde o expositor milita em erro.
O Senhor Jesus Cristo aponta João como aquele que fora superior aos seus
pares anteriores e que do início de sua vida até aquele momento os Reino de
Deus era conquistado por meio da força.
Lc. 16:16 “A lei e os profetas duraram até
João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força
para entrar nele”.
O verbo Binzetai, no grego, pode estar na voz passiva
ou média e isso é possível no texto. Na forma passiva quer dizer que o Reino
dos céus é violentado, forçado, tomado por homens violentos, tal como homens
violentos tomam uma fortaleza.
Na voz média quer dizer – experimenta violência ou força seu caminho.
O entendimento mais factível deve ser o de que representa a maneira
corajosa e resoluta dos fiéis, de aceitar para si o Reino que Deus lhes
oferece, vencendo pela fé e pelo poder de Cristo, a qualquer oposição do mundo exterior,
ou tentação íntima.
Os publicanos e gentios, que os escribas e fariseus criam que não tinham
direito ao reino do Messias, cheios de santo zelo e veemência, se apoderam da
misericórdia do evangelho que lhes é oferecida, tomando para si, como pela força,
àqueles eruditos doutores que reclamavam para si os principais lugares nesse
Reino.
Ex. Lc. 8:40-48 – Mt. 15:21-28.
Assim sendo, não existe outra maneira de entrar no Reino de Deus senão
através da fé em Cristo e uma firme resolução de vencer as oposições.
Continuarei em breve. Aguarde.
SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER
Pr. Luiz Fernando R. de Souza
Ao mesmo tempo que o orador diz em servir fala também em tomar o poder.
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