01 setembro 2017

ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE O CINQUENTENÁRIO DA CONVENÇÃO BATISTA NACIONAL



Como membro de uma igreja batista nacional e pastor há mais de três décadas presenciei bons e maus momentos dentro da Convenção Batista Nacional (CBN). Experimentei parte do auge do movimento de renovação espiritual e vivi com os expoentes da denominação, o que trouxe crescimento para minha pessoa. Ao completarmos cinquenta anos de existência não poderia deixar de me manifestar diante desta data e momento.
Acredito que poderíamos ter escrito uma história bem diferente da que escrevemos e vivenciamos. 
Tudo conspirava para que a trajetória da CBN fosse um marco diferencial no meio evangélico brasileiro.
A experiência de renovação espiritual, que não era nova, mas se manifestava nova entre os Batistas Brasileiros e outras denominações históricas, era um grande diferencial e motivador para que as igrejas fossem aquecidas pelo Espírito Santo, juntamente com a preservação dos referenciais históricos e teológicos. Mas na realidade isso não aconteceu em sua totalidade. A experiência carismática aos poucos sobrepujou os referenciais históricos e teológicos e devido ao rápido crescimento da CBN somente foi observado o momento e não houve uma projeção quanto ao futuro da denominação.
Gostaria de ponderar sobre estes fatos:

1 – Depois de cinquenta anos de vida a Pneumatologia da CBN ainda é algo difuso e inconcluso. Nos primeiros momentos fomos beber no referencial experimental e teológico dos pentecostais, pois acredito que eram a fonte mais próxima e de melhor acesso. Só que o abeberar-se dessa fonte trouxe consigo os trejeitos dos pentecostais e com o tempo a eclesiologia e Pneumatologia sofreram mudanças em sua forma de ser.
Até hoje, nossas definições pneumatológicas passam pelo viés pentecostal deixando a denominação à deriva nesta área. Consequentemente distorções teológicas se apresentaram e trouxeram empobrecimento para denominação. No dia-a-dia de muitas igrejas não se consegue fazer diferenciações entre pentecostais,neopentecostais e batistas nacionais.
Até o presente momento não conseguimos gerar uma Pneumatologia que expressasse aquilo que experimentamos a cinquenta anos. O aprofundamento teológico, nesta área, parece que nunca foi buscado porque houve acomodação com aquilo que havia sido conquistado. Muitas experiências vividas nas igrejas foram tidas como oriundas do Espírito Santo, mas eram antagônicas à Palavra e nada foi feito para reverter o quadro. Isso trouxe um modus operandi acéfalo que levou a lugar algum.
Realmente na Pneumatologia poderíamos ter escrito uma outra história.

2 – Depois de cinquenta anos a Eclesiologia da CBN (igrejas várias) não se enquadrou no padrão neotestamentário. Para um grande percentual de igrejas a Eclesiologia pode ser tirada de qualquer lugar. Práticas esdrúxulas entraram e viraram normas em nossas igrejas. Cito a aceitação tácita do judaísmo pobre e empobrecedor que adentrou várias igrejas e símbolos judaicos estão presentes nos altares, paredes e púlpitos, como se Deus possuísse hoje dois povos, a igreja e Israel. Pastores usando o Quipar para serem diferentes ou para aparentar mais espiritualidade ou qualquer outra coisa. Não e incomum tocar o Shofar nas igrejas para um certo tipo de despertamento ou até atrair a presença de Deus ou mesmo demonstrar espiritualidade ou atrair o sobrenatural. Estamos “tentando costurar o véu que já foi rasgado”.
A introdução de coreografias no culto trouxe sensualidade, carnalidade e mundanidade para dentro das igrejas. Elas nada significam ou alteram o teor do culto ou seu objetivo. Não acrescentam espiritualidade nem dinâmica alguma, mas chegaram para ficar e aí estão.
E o que dizer da esquizofrenia cúltica que é praticada em centenas de igrejas? Quantas reuniões o povo é levado aos extremos das sensações e esta esquizofrenia cúltica se torna o ponto alto dos cultos.
Há pouco tempo um colega pastor me questionou o porquê de eu haver escrito em meu blog que a eclesiologia batista deve ser tirada do Novo Testamento e que isto era um princípio distintivo dos batistas. Ele disse que já era pastor da CBN há mais de 15 anos e que nunca tinha lido algo parecido. Pediu-me fontes bibliográficas. 
E o que falar da consagração de apóstolos em nosso meio? Da unção com óleo quando da consagração de alguém ao ministério pastoral? Da consagração em massa de pastores sem o menor preparo?
Realmente na Eclesiologia poderíamos ter escrito uma outra história.

3 – Depois de cinquenta anos teologicamente a CBN virou uma colcha de retalhos.
Não existe consistência alguma em termos teológicos e doutrinários. Acredita-se que a pluralidade teológica seja algo bom e distintivo. Só que essa pluralidade tem roubado o nexo histórico e teológico dentro da CBN. Não se sabe se a CBN é continuísta ou não.
Para vários pastores Cristo poderia ter pecado e consequentemente derrubado os decretos soteriológicos da Trindade. Para muitos a doutrina da Eleição é abominação.
Para um percentual muito grande de igrejas são verdadeiros os fatos das maldições hereditárias, de bênçãos e maldições, de cura interior etc., outros ainda acreditam que há poder em suas palavras. E o que dizer das campanhas de libertação onde são praticados rituais para terminar a libertação iniciada no Calvário? Na Soteriologia padecemos de grave enfermidade.
O que dizer das profecias absurdas que tentam controlar as vidas das pessoas, profecias megalomaníacas que prometem os céus na terra? O que dizer dos jargões infantis como: “Eu profetizo em sua vida.... O melhor está por vir…”
Deixei por último para mencionar o desastre da aceitação acrítica dos processos do G12. Depois de mais de 15 anos dessa experiência o que sobrou? Igrejas esfaceladas, pastores disfuncionais, ensinamentos erráticos e doentios e perda de grande parte da identidade da CBN. Tudo em nome de um pluralismo inócuo.
Realmente na Teologia poderíamos ter escrito uma outra história.

4 – Depois de cinquenta anos podemos nos alegrar porque a CBN ainda existe. Podemos nos alegrar porque a CBN ainda cresce e de algum modo tem levado a mensagem de salvação não somente dentro do Brasil, mas fora também. Contamos com milhares de pastores e igrejas com um enorme potencial. Vários centros acadêmicos, editora e uma boa estrutura para missões. Isso aponta que temos um futuro e esse futuro poderá ser escrito de forma diferente. Creio que é o momento de ponderarmos sobre o legado que será deixado para as próximas gerações de batistas nacionais.
Algumas coisas, a meu ver, podem ser feitas:
a) Olharmos nossa história e vermos onde erramos para corrigir radicalmente.
b) Preocuparmo-nos com a formação de pastores Batistas Nacionais, ou seja, precisamos forjar pastores denominacionais com um alto padrão cultural e espiritual, além de uma forte ênfase Batista que suporte os reveses do tempo.
c) Encontrar o equilíbrio na Pneumatologia rapidamente. Corrigir as distorções existente sem perdermos o fervor espiritual, missionário e teológico.
d) Dinamizarmos e atualizarmos a estrutura denominacional introduzindo mecanismos digitais e virtuais para melhor integração entre as igrejas e pastores.
e) Promover um nivelamento teológico a nível nacional entre os pastores para que falemos a mesma língua em toda nação.
f) Promover uma forte ênfase em evangelismo e missões visando a divulgação consistente do Evangelho pelo território nacional e fora dele.
g) Incentivarmos nossos jovens a buscarem graus maiores de conhecimento (Mestrado – Doutorados – Pós Doutorado) para se tornarem formadores de opiniões e tendências nas universidades deste país.
Poderia escrever um pouco mais, mas deixo estes rabiscos como preambulo para outrem.
Sim, existe um futuro para CBN e nós somos este futuro. O que plantarmos agora será colhido amanhã.
Que Deus nos ajude.

SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER


Pr. Luiz Fernando R. de Souza

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