11 março 2015

Deus meu, Deus meu


Estas são as palavras de maior segurança para os pecadores, enquanto Jesus estava pendurado no madeiro. Quanto mais medito, tanto mais acho impossível desvendar tudo o que está contido nelas. Freqüentemente você deve ter observado como algo tão pequeno pode encerrar em si uma seqüência de coisas tão grandes. Uma flâmula sobre o mastro principal é algo pequeno; todavia mostra claramente para que lado o vento sopra. Uma nuvem do tamanho da mão de um homem é algo pequeno; no entanto, pode mostrar que se aproxima uma forte tempestade. A andorinha é um pássaro pequeno; entretanto, anuncia que o verão chegou. Assim é com o homem. Um olhar, um vislumbre, uma idéia não completada — uma sentença incompleta — pode mostrar muito mais o que se passa interiormente do que um longo discurso. Assim aconteceu na morte do Salvador. Estas poucas palavras de sofrimento nos dizem mais do que grandes volumes de teologia. Que o Senhor nos capacite a encontrar algo aqui que alimente as nossas almas.
I - A perfeição da obediência de Cristo
1. Palavras de obediência. “Deus meu, Deus meu.” Ele foi obediente até a morte. Sempre tenho explicado a você como o Senhor Jesus veio para ser não somente um cumpridor como também o Salvador agonizante — não somente para sofrer tudo que nós deveríamos ter sofrido, mas também para obedecer a tudo que nós deveríamos ter obedecido — não apenas para sofrer a maldição da lei, mas para obedecer aos mandamentos da lei. Quando isto lhe foi proposto no céu, Ele disse: “Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8). Agora, olhe para Ele como um homem obediente ao seu Deus. Veja como Ele fez isso de forma tão perfeita — até o final! Deus lhe diz: “Cumpra a minha vontade”. Ele obedece: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lc 2.49). Deus lhe diz: “Fale por mim aos pecadores” — Ele obedece: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.32, 34). Deus Lhe diz: “Morra em lugar dos pecadores — sofra a minha ira por amor aos inimigos — suporte a crucificação; derrame o seu sangue e entregue a sua vida por eles” — Ele obedece: “Ninguém a tira de mim” (Jo 10.18). Na noite anterior, Ele disse: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18.11). Porventura, Ele recuaria ao chegar à cruz? Não; por três horas a escuridão O envolveu, mas, ainda assim, Ele disse: “Deus meu, Deus meu”. Pecador, você tem a Cristo como sua segurança? Veja que obediência perfeita, em seu lugar! O grande mandamento de morrer pelos pecadores estava sobre Ele. Veja que obediência perfeita!
2. Palavras de fé. “Deus meu, Deus meu.” Estas palavras mostram a maior fé que já existiu neste mundo. Fé é crer na palavra de Deus, não porque a vemos ou sentimos que ela é a verdade, mas porque Deus a pronunciou. Na cruz, Cristo foi rejeitado. Ele não viu que Deus era o seu Deus — Ele não sentiu que Deus era o seu Deus; e, ainda assim, Ele creu na palavra de Deus, e bradou: “Deus meu, Deus meu”. (1) Davi demonstrou grande fé, conforme nos mostra o Salmo 42.7,8: “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim. Contudo, o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida”. Ele se sentia como que coberto por um mar de sofrimentos. Ele não conseguia ver nenhuma luz — nenhum escape; não obstante, ele creu na palavra do Senhor e disse: “Contudo, o Senhor me concede misericórdia”. Isto é fé, que crê mesmo quando não vê. (2) Jonas mostrou grande fé: “Pois me lançaste no profundo, no coração dos mares, e a corrente das águas me cercou; todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima de mim. Então, eu disse: lançado estou de diante dos teus olhos; tornarei, porventura, a ver o teu santo templo?” (Jn 2.3,4). Ele estava, literalmente, no fundo do mar. Ele não conhecia um meio de escape — não via nenhuma luz — não sentia nenhuma segurança; ainda assim, ele creu na palavra de Deus.
Isso era ter uma grande fé. (3) Mas, ah! Eis alguém maior que Jonas! Eis uma fé maior que a de Davi — fé maior que a de Jonas — a maior fé que já existiu no mundo, no passado ou futuro. Cristo, na cruz, estava sob um mar mais profundo que aquele que cobriu Jonas. As ondas agitadas da ira de Deus lançaram-se com furor sobre Ele. Ele foi rejeitado por seu Pai — esteve em densas trevas — esteve no inferno; ainda assim, creu na palavra de Deus. “Pois não deixarás a minha alma na morte” (Sl 16.10). Ele não sente — Ele não vê — mas Ele crê e brada: “Deus meu, Deus meu”. “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15 - RC). Querido crente, esta é a sua segurança. Você sempre está descrente — desconfiado de Deus; contemple a sua segurança: Ele nunca deixou de confiar; apeguese a Ele — você é completo nEle.
3. Palavras de amor. “Deus meu, Deus meu.” Estas foram as palavras de doce submissão que Jó pronunciou, quando Deus tirou filhos e bens: “Nu saí do ventre de minha mãe” (Jó 1.21). Tão doces, que ele pôde até bendizer a Deus, mesmo quando Ele lhe tirou tudo. Aquelas foram palavras de amor doce e submisso, as quais o velho Eli disse, quando Deus lhe falou que seus filhos morreriam: “É o Senhor; faça o que bem lhe aprouver” (1 Sm 3.18). O mesmo temperamento doce estava no âmago da mulher sunamita, cujo filho veio a morrer, quando o profeta lhe perguntou: “Vai tudo bem contigo, com teu marido, com o menino? Ela respondeu: Tudo bem” (2 Rs 4.26). Mas, ah! Aqui está um amor maior — uma submissão maior e mais doce do que a de Jó, de Eli ou da mulher sunamita. Maior do que qualquer amor que já existiu no mundo. Aqui está alguém que fora pendurado entre a terra e o céu — rejeitado por seu Deus — sem um sorriso — sem qualquer consolo — sofrendo as agonias do inferno; mas, ainda assim, amando ao Deus que O rejeitou. Ele não bradou: “Cruel, Pai cruel!” Não! Mas, com toda veemência e afeição, clamou: “Deus meu, Deus meu”. Queridas almas, é esta a sua segurança? Vocês O têm como Aquele que obedeceu por vocês? Ah! Então, vocês são completos nEle. Vocês têm um amor muito pequeno por Deus. Com que freqüência vocês têm murmurado e pensado que Deus é cruel por tirar-lhes algumas coisas; mas, vejam a sua segurança, e regozijem-se nEle com alegria abundante. Todo o mérito de sua santa obediência lhes foi imputado.
II - A intensidade dos sofrimentos de Cristo
Ele foi rejeitado por Deus: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” A Liturgia Grega diz: “Nós vos suplicamos, por todos os sofrimentos de Cristo, conhecidos e desconhecidos”. Quanto mais conhecemos os sofrimentos de Cristo, tanto mais entendemos que eles não podem ser perscrutados. Ah! Quem pode explicar todo o significado do pão partido e do vinho derramado?
1. Ele experimentou muito sofrimento da parte de seus inimigos. (1) Ele sofreu em todo o seu corpo. Em sua cabeça — foi coroada de espinhos e golpeada com uma vara. Em sua face — eles a golpearam, e Ele a ofereceu àqueles que Lhe arrancavam a barba: “Não escondi o rosto aos que me afrontavam e me cuspiam” (Is 50.6). Em seus ombros — que carregaram a cruz pesada. Em suas costas: “Ofereci as costas aos que me feriam”. Em suas mãos e pés: “traspassaram-me as mãos e os pés” (Sl 22.16). Em seu lado — um soldado cravou uma lança em seu lado. Ah! Quão bem Ele pôde dizer: “Isto é o meu corpo oferecido por vós” (Lc 22.19). (2) Ele sofreu em todos os seus ofícios. Como profeta: “Outros o esbofeteavam, dizendo: profetizanos, ó Cristo, quem é que te bateu!” (Mt 26.67-68). Como sacerdote: eles zombavam dEle, quando ofereceu-Se como oferta única pelo pecado. Como rei, quando, ajoelhando-se diante dEle, diziam: “Salve, rei dos judeus” (Jo 19.3). (3) Ele sofreu por parte de todos os tipos de homens — sacerdotes e anciãos — soldados e transeuntes — reis e ladrões: “Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam” (Sl 22.12). — “Cães me cercam” (Sl 22.16) — “Como abelhas me cercaram” (Sl 118.12). (4) Ele sofreu muito da parte do diabo: “Salva-me das fauces do leão” (Sl 22.21). Todo o sofrimento de Cristo foi uma batalha violenta e contínua contra Satanás: “Despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15).
2. Ele sofreu muito da parte daqueles que Ele salvou posteriormente. Quão amargo foi o escárnio do ladrão que naquele dia seria perdoado e aceito! Quão amargo os brados dos três mil, que logo chegaram a saber a Quem estavam crucificando!
3. Da parte de seus discípulos. Todos O rejeitaram e fugiram. João, o discípulo amado, permaneceu de longe, e Pedro O negou. Dizem que quanto mais se espreme e esmaga a flor da camomila, tanto mais doce é o aroma que ela deixa ao redor. Ah! Assim aconteceu com nossa doce Rosa de Saron. O Salvador, esmagado pelo sofrimento, exalou aquela doce fragrância ao seu redor. São estas pisaduras que fazem de seu nome um bálsamo derramado.
4. Da parte do Pai. Todos os outros sofrimentos não foram nada em comparação a este: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Os outros sofrimentos foram limitados. Este foi um sofrimento infinito. Ser pisado pelo calcanhar de homens ou demônios era algo pequeno; mas, ah! ser esmagado pelo calcanhar de Deus: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo” (Is 53.10).
Existem três considerações que nos mostram a intensidade dos sofrimentos de Cristo
1. Quem era Aquele que O rejeitou. Não era o seu povo, Israel — não era Judas, o traidor; não era Pedro, que O negou; nem João, que se recostava em seu peito. Ele poderia ter suportado tudo se assim fosse; mas, ah! foi seu Pai e seu Deus! As outras coisas pouco O afetavam, em comparação a esta. Os transeuntes meneavam a cabeça — Ele não disse uma palavra. O chefe dos sacerdotes escarneceu dEle — Ele não murmurou. Os ladrões zombavam ao lado dEle — Ele agia como um homem surdo, que nada ouvia. Deus trouxe três horas de escuridão sobre Ele — as trevas exteriores eram a imagem da escuridão que envolveu sua alma. Ah! isto foi agonia infinita: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
2. Quem era Aquele que foi rejeitado. (1) Alguém infinitamente querido por Deus. Vós me amastes antes da fundação do mundo; todavia, vós me rejeitastes. Eu estive desde sempre junto de Ti — em gozo infinito diante de Ti. Eu gozava do resplendor do vosso amor. Ah! Por que estas trevas tão terríveis me cercam? “Deus meu, Deus meu.” (2) Alguém que tinha infinita aversão pelo pecado. Que terrível é para um homem inocente ser lançado na cela de um criminoso condenado! Mas, ah! quão mais terrível foi para Cristo, que possuía infinita aversão pelo pecado, o ser considerado pelo Pai como pecador. (3) Alguém que tinha o gozo infinito do favor de Deus. Quando dois amigos dedicados se encontram, eles têm um gozo intenso do amor um do outro. Quão doloroso é suportar os olhares frios e adversos daquele em cujo favor você encontrava este gozo indizível! Mas, ah! isso nada é quando comparado à dor de Cristo.
3. O que Deus fez a Ele — rejeitou- O. Prezados amigos, contemplemos este oceano no qual Cristo mergulhou. (1) Ele foi privado de todas as consolações de Deus — não sentia o amor de Deus; não sentia que Deus se compadecia dEle; não sentia que Deus Lhe dava amparo. Antes Deus era seu sol. Agora aquele sol se transformou em trevas. Nenhum sorriso de seu Pai — nenhum olhar agradável, nenhuma palavra bondosa. (2) Ele estava sem Deus — era como se Ele não tivesse Deus. Tudo o que Deus havia sido para Ele antes foi- Lhe tirado. Ele estava sem Deus — privado da comunhão com seu Deus. (3) Ele teve o mesmo sentimento do um condenado, quando o juiz lhe diz: “Aparta-te de mim, maldito, que deve ser punido com destruição eterna, fora da presença do Senhor e da glória de seu poder” . Ele sentiu que Deus Lhe dissera o mesmo. Ah! este foi o inferno que Cristo sofreu. Queridos amigos, sinto-me como uma criancinha lançando uma pedra em alguma ribanceira na montanha, atento por ouvir sua queda — mas ouvindo em vão; ou como o marinheiro que lança o prumo ao mar, o qual é muito fundo — a mais longa corda não pode alcançar. O oceano dos sofrimentos de Cristo é insondável.
III - Respostas ao “Por que me desamparaste?”
Por ser Ele a segurança dos pecadores e oferecer-se em lugar deles.
1. Ele concordou com seu Pai, antes de toda a eternidade, em colocar- se no lugar dos pecadores e por eles sofrer, ou seja, toda a maldição que deveria ser lançada sobre eles, caiu sobre Jesus. Por que Ele ficaria tão surpreso por Deus ter derramado toda a sua ira? “Por que me desamparaste?” O motivo é que Jesus fez aliança para colocar-Se em lugar dos pecadores.
2. Ele se dispôs. Ele manifestou no semblante a intrépida resolução. “Fiz o meu rosto como um seixo” (Is 50.7). Deus colocou o cálice diante dEle, no jardim, dizendo: “Estás disposto a bebê-lo ou não?” Ele respondeu: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18.11). “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo” (Is 53.10). Por quê? Porque Jesus, ao escolher ser a segurança, não recuaria.
3. Ele sabia que, se não sofresse, o mundo inteiro teria de sofrer. Foi sua compaixão pelo mundo que O fez assumir o lugar de Salvador: “Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria justiça o susteve” (Is 59.16) . Por quê? Porque ou Ele, ou o mundo — inferno para Ele ou para toda a humanidade.
Lições para nós:
1. Lição para as pessoas sem Cristo. Esteja ciente do seu perigo. Onde quer que Deus veja pecado, Ele irá puni-lo. Ele puniu os anjos rebeldes — puniu Adão — o mundo antigo — Sodoma; e, quando viu o pecado sobre Cristo, rejeitou seu próprio Filho. Você faz pouco caso do pecado. Veja o que Deus pensa sobre o pecado. Ainda que seja apenas um pecado que esteja sobre você, se este não tiver sido expiado, você não será salvo. Deus diz: “Ainda que... fosse o anel do selo da minha mão direita — ainda que fosse meu filho amado — eu dali o arrancaria” (Jr 22.24). Oh! deixe-me persuadi-lo, neste dia, a aproximar-se de Jesus Cristo!
2. Lição para aqueles que estão em Cristo. Admire o amor de Jesus. Oh! que mar de ira Ele suportou por você! Que sofrimento Ele experimentou por você, alma ingrata e vil! O corpo transpassado e o sangue derramado — representados no pão e no cálice — são provas do seu amor. Oh! que o seu coração transborde em anelo pelo Salvador! Diríamos a todos os que estão em Cristo: Ele foi rejeitado, em lugar dos pecadores. Se você O tem como sua única segurança, nunca será rejeitado. Do corpo transpassado e do sangue derramado surge o clamor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Por mim — Por mim! Que Deus abençoe a sua Palavra.
Soli Deo Gloria
Pr. Luiz Fernando R. de Souza

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