01 julho 2013

FRUSTRAÇÃO COM IGREJAS - UM MAL CRESCENTE E INCONTROLÁVEL



Nunca houve na história da igreja um movimento migratório tão intenso como o que ocorre em nossos dias. Hoje praticamente é impossível manter um rol de membros de qualquer igreja atualizado ou minimamente ajustado. Antigamente a migração se dava por motivos praticamente inexistentes hoje. Um membro trocava de igreja por causa de seu trabalho que o obrigava a deslocar-se de cidade ou porque um filho ia para uma faculdade e os pais, quando podiam, mudavam juntamente com ele. Basicamente o trabalho era o motivo principal. Mas agora vemos raramente alguém apresentar este motivo como causa de troca de igreja. Vivenciamos algo totalmente novo no meio cristão. Algo altamente destruidor, inibidor e falacioso. Penso que alguns fatores ajudam aumentar esta migração em forma exponencial.

1.   A Mobilidade Social 

A mudança de patamar de vida leva o indivíduo mudar sua escala de valores e então sua comunidade local não consegue entender ou acompanhar esta mudança e ai tal pessoa busca aquela igreja que preencha suas necessidades. Essa mobilidade social se dá principalmente através de conquistas na área educacional, financeira e mesmo a social. Um upgrade cultural pode deslocar completamente um indivíduo de seu meio por perceber que as bases mentais foram alteradas, criando assim um abismo cultural entre tal indivíduo e sua comunidade de fé. Novos interesses e necessidades são gerados ai a busca por algo mais elaborado se apresenta. A mudança é praticamente automática e irreversível. 

      2. Busca Por Pertencer a Uma Estrutura Grande

Muitos acham que se pertencerem a uma grande estrutura tanto física como populacional também se tornarão grandes. Ficam encantados com grandes edifícios e multidões. Julgam que este meio lhes proporcionará certo grau de realização pessoal. Julgam que todo o movimento proporcionado por grandes estruturas será suficiente para gerar uma melhoria interna e a transformação que tanto anseia. Esquecem-se que nestes movimentos de massa com grandes estruturas a tônica presente é a desumanização e massificação do individuo. Tornam-se números e nada mais. Os cultos tornam-se impessoais e a tendência é que guetos sejam formados para que a sobrevivência aconteça.

As estruturas são grandes de verdade mais o indivíduo se apequena cada vez mais. Assim neste meio que a princípio tudo é atrativo e luminoso a frustração se apresenta porque fica evidente que pequenos grupos  próximos às lideranças significativas recebem as benesses e a maioria é alijada do processo. Isso é fator de migração no meio cristão.

3. Promessas Não Cumpridas

As pesquisas recentes apontam como um fator preponderante para a migração as promessas de prosperidade oferecidas pelas igrejas de massa e que nunca foram e nem serão cumpridas. O indivíduo atraído por promessas miraculosas de prosperidade e cura ou mesmo de encontrar o amor de sua vida, entram para tais igrejas e ali confiando no que é dito passam a ofertar quantias significativas de dinheiro na esperança de verem seus sonhos realizados. Durante algum tempo a pessoa é iludida e tem sua esperança renovada por pronunciamentos encorajadores, mas rapidamente percebe que as coisas não mudaram e sim pioraram. Veem seus líderes enriquecerem e apresentarem um padrão muito acima do normal e eles acomodam na condição de fontes de financiamento de tal sistema. A frustração é algo inevitável nestes ambientes e consequentemente a migração é seu corolário. 

           4. Busca Por Revelação e Poder de Deus

É incrível como as pessoas se recusam a crescer diante de Deus. Aprendem alguma coisa da Palavra sobre Deus e seu poder e depois iniciam uma busca frenética por ambiências que proporcionem o que esperam. Passam a julgar se um culto é espiritual ou não através de manifestações diferentes ou pela intensidade de revelações espirituais. Acham que pessoas específicas detêm poderes diferenciados cura, libertação e revelação e ai enchem auditórios e levam consigo uma avidez surpreendente. Chegam a acreditar, mesmo contra todo bom senso e a Palavra de Deus, que uma rosa ungida, uma toalha suada de um apóstolo ou um cajado cheio de um óleo qualquer terão poder de mudar toda uma existência conturbada e desequilibrada. Em muitas ambiências é incentivada a expulsão de demônios para provar que o pregador tem poder sobre o mundo espiritual. O pregado tornar-se One Man Show. Tais pessoas quando entram em uma igreja que não reza pela mesma cartilha em que foram educados ou doutrinados, dizem que ali não existe o poder de Deus ou os cultos são frios. Não conseguem mais se alegrar quando um pecador se arrepende e é alcançado pela graça de Deus.

Quando acontece de alguma luz brilhar na mente daqueles que buscam poder e revelações, então migram frustrados para outras comunidades buscando recomposição espiritual e pessoal.

            5. Escândalos Sexuais e Financeiros

Nesses movimentos de massa a grande característica é o isolamento da liderança. Isso é algo altamente prejudicial, pois tais líderes passam a ser suas próprias referências. Começam ver outros famosos fazerem coisas estranhas e sem crítica alguma introduzem as mesmas coisas em suas comunidades levando seu povo ao um desequilíbrio quase que irrecuperável. Buscam referencia em líderes com comportamentos extravagantes e acham isto normal. Acolhem e praticam tais comportamentos, pois querem a mesma visibilidade que os outros têm. Além disso, muitos se julgam acima do bem e do mal. Acham que são especiais para Deus e alguns pecados serão relevados pelo Criador. Aventuram-se a cruzar as linhas dos limites estabelecidos pela Palavra, achando que somente desta vez não terá problema. Mas esquecem de que Satanás é o primeiro incentivar e o último a esconder. Quando o pecado é praticado o primeiro a puxar a cortina e mostrar a nudez do líder é o próprio Diabo.

Os escândalos aparecem e quem tem um pouco de equilíbrio nestes meios de massa vêm–se desprotegidos, traídos e totalmente frustrados. A migração torna-se a única opção para tais pessoas.



Poderia escrever mais sobre os fatores da migração, mas quero falar um pouco sobre suas consequências.

As consequências da migração são funestas em muitos casos.

1.   Aqueles que se veem frustrados nestas igrejas, de massa ou não, buscam outras igrejas, grandes ou não, mas chegam tão decepcionados que se tornam membros inúteis. Julgam que todos os líderes são iguais e possuem os mesmos interesses e visão do Reino de Deus. Posicionam-se friamente fora da vida de sua nova comunidade achando, muitas vezes, que logo, logo aqueles que estão na igreja vivenciarão o que eles viveram no passado. Fecham-se por completo para sua nova ambiência e se recusam a ser produtivos novamente.

2.   Não conseguem superar os traumas do passado. Não conseguem virar a página de sua história de vida e vivem num processo autofágico de repaginação da vida. A igreja onde sou pastor, por excelência, tem recebido em sua membresia pessoas frustradas com o sistema. Tenho dito para tais irmãos que eles podem vivenciar uma grande chance de mudança e visão de vida, mas que certamente nunca conseguirão doar para a igreja nem 10% do que fizeram em sua antiga comunidade de fé. E para minha tristeza tenho visto que este meu modo de pensar é uma máxima com raríssimas exceções. Alguns depois de meses conseguem se desvencilhar das malhas das decepções, frustração e traição sofridas e se abrem novamente para graça de Deus, experimentando um novo momento de vida, mas são poucos.

3.   Tornam-se juízes de tudo e todos. Passam a criticar tudo e todos como se tivessem alcançado um patamar superior de vida. Muitas vezes demostram desprezo para uma nova comunidade porque viveram algo desastroso no passado e sentem medo de viverem novamente, tornando-se assim em juízes. Normalmente agem com desconfiança em sua nova comunidade de fé. Parecem que pisam em ovos. Sentam-se nos bancos de trás da igreja. Não se incomodam em dizimar, mas não querem ser incomodados com nenhuma nova demanda em suas vidas. Preferem o anonimato. São pessoas talentosas, com grandes capacidades, mas que simplesmente abdicaram de tudo isso por causa das frustrações vividas no passado. 

4.   Essa migração desordenada traz consigo uma diluição de doutrina nas igrejas locais. Essa migração proporciona todo tipo de conceitos dentro das igrejas. Várias pessoas veem de igrejas diferentes e trazem consigo doutrinas diferentes que julgam verdadeiras e não estão dispostas a repensar tais ensinamentos e consequentemente comportamentos apreendidos. Creio que uma possível solução seria a criação de uma classe de nivelamento para receber esses novos irmãos advindos de várias denominações. Assim, seriam instruídos sobre o viver de sua nova comunidade de fé e suas crenças e valores. Consequentemente a aceitação de tais irmãos se daria no longo prazo. Creio que um ano no mínimo.

De fato a migração no meio cristão, sem motivos sérios, tem levado a um retrocesso na vida da igreja. Com tal processo a igreja vive algo como em corrida de carros “Stop and Go”. Para e avança, para e avança. É um fenômeno que teremos de conviver com ele ao longo da vida e creio que no curto prazo não teremos solução para ele.  
Resta-nos lutar para que Deus nos conceda graça e que possamos ajudar tais irmãos a se recuperarem de seus traumas e a viverem novamente a benção do convívio eclesiástico sadio.


Soli Deo Glória

Pr. Luiz Fernando R. de Souza

11 comentários:

  1. Olá, Pr. Luiz Fernando.

    Pontuais, honestas, e preciosas e precisas as palavras que disse em seu artigo. Não tenho visto outra coisa, além daquilo que o sr. afirmou, em relação a essa nova corrente migratória de (in)fiéis, e corroboro seu ponto de vista.
    Um abraço,
    Hermes

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    1. Irmão Hermes,
      pena que virou tendência e isso não se reverte no curto prazo. Infelizmente a igreja vem a reboque do mundo, copiando exatamente tudo de negativo existente. Mas ela é de Cristo e o seu Senhor a levará bom termo.
      Um abraço
      Em Cristo
      Pr. Luiz Fernando

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  2. Gostei do seu artigo. Penso que parte da responsabilidade desse processo migratório se deve ás nossas lideranças que teem sido uma lástima. Pessoas(líderes, pastores) que só olham os fiéis como números e não como pessoas, preocupados por demais com suas posições ocupadas com seus cargos convencionais e que por isto não teem como cuidar do rebanho que foi lhe confiado , assim sendo as ovelhas saem a pricura de PASTORES.

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    1. Verdade Pr. Gessi. Muitas vezes o ministério pastoral tem se profissionalizado e perdido seu objetivo para muitos. Precisamos focar naquilo para o que fomos chamados.
      Obrigado por sua visita.
      Um abraço
      Em Cristo
      Pr. Luiz Fernando

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  3. Tristes verdades ditas no texto.
    Andréia

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    1. Irmã Andréia,
      infelizmente é isso mesmo. No presente pouca coisa pode ser feita para reverter este terrível quadro.
      Um abraço
      Em Cristo
      Pr. Luiz Fernando

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  4. Estou enquadrado nas 2 primeiras 'consequências'...triste de mim e desobediente que sou, muitas vezes, me sinto distante de Deus por isso. Minha fé nEle e em Jesus, em sua ação redentora/salvífica, cresce a cada dia, mas antagonicamente/contraditoriamente, não consigo me re-encaixar em uma igreja.
    Tenho pedido a Deus, que através de sua misericórdia e pela sua graça, me dê uma direção.

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    1. É preciso tomar uma decisão urgente. Muitas vezes passamos a acreditar naquilo que afirmamos ou pensamos ao invés de mudarmos de postura.
      A hora é esta.
      Deus o abençoe
      Pr. Luiz Fernando

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  5. Muito bom pastor. Falou tudo. As igrejas passaram a ser vistas como prestadoras de serviços espirituais, e os membros passaram a ser os consumidores no mercado da fé. A moeda virou o dinheiro no lugar da entrega dos nossos desejos ao senhorio de Cristo. Não poderíamos esperar algo muito diferente do que temos visto. Parabéns! Abraço!

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    1. Irmão Fábio,
      suas colocações são precisas e verdadeiras. Precisamos de um grande arrependimento diante do criador.
      Um forte abraço
      Em Cristo
      Pr. Luiz Fernando

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  6. Graça e Paz Pastor. Parabéns pelo artigo e também pela excelente ministração nesta terça 09/07 na reunião da Ormiban. Já fazia um tempo que eu não me sentia alimentado em nossas reuniões da Ordem. Que as próximas reuniões sejam assim. Deus te abençoe!
    Pr. Wanderson Alvez
    Ig. B. Central
    Conj. Cristina - Santa Luzia

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