20 setembro 2011

A IMBECILIZAÇÃO DA IGREJA - UNÇÃO DO EMAGRECIMENTO E DO ESQUECIMENTO

Como o caso saiu em jornais de Minas Gerais e tornou-se público não pude deixar de perceber que quanto mais Deus é desrespeitado juntamente com Sua Palavra maior é o nível de imbecilização do Evangelho. Não teço opiniões sobre pessoas já que não conheço o pastor da reportagem, mas questiono comportamentos. Veja a matéria aqui que saiu nos jornais.

Após contatos com vários pastores da Cidade de Governador Valadares (MG), fiquei sabendo das aberrações perpetradas por alguns líderes de igrejas neopentecostais. Soube que existem desde kits completos para campanhas até a prática de unções exóticas que são praticadas nas igrejas.

Na reportagem citada o pastor ora para que as pessoas emagreçam e unge pessoas para que esqueçam seus passados tenebrosos, a chamada unção de Manassés. Vamos ponderar alguns pontos:

1 – O Evangelho do Senhor Jesus Cristo não tem como escopo nem como apêndice tais sandices praticadas pelo referido pastor da reportagem e por outros que no mínimo são totalmente analfabetos de Bíblia e teologia. O Evangelho por natureza é mensagem de salvação e perdão de pecados. Cristo não morreu na cruz do Calvário com o fim de promover estas aberrações. Ele cumpriu o plano de Deus e este plano primariamente era resgatar o homem de sua condição de inimigo de Deus. Qualquer outra proposta para o Evangelho do Senhor Jesus Cristo é outro evangelho, outra mensagem e não encontra nenhum amparo nas Escrituras. Paulo chega a dizer em Gal. 1:6-9 “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; 7 O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. 8 Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. 9 Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema”.

2 – Estas práticas absurdas somente apontam para um total sincretismo religioso. Essa mistura de pseudoevangelho com práticas xamanistas descaracteriza completamente o santo Evangelho de Cristo. A igreja foi chamada para preservar a pureza do Evangelho e lutar pela fé que uma vez foi entregue aos santos. Cabe aos pastores e líderes a incumbência de extirpar as misturas do meio cristão, denunciando com firmeza a avareza dos homens que na busca por projeção e dinheiro sacrificam a mensagem do Evangelho, sacrificam o bom nome de Cristo e atestam suas sórdidas intenções. Quando alguém se propõe a fazer o que a reportagem disse, somente nos resta dizer que vale tudo no meio gospel em nome de Deus. Aqui os fins justificam os meios. Não encontro na Palavra de Deus nenhum tipo de indicação que o Espírito Santo faça estas coisas descritas na reportagem. Não encontro padrão bíblico para orar pelas pessoas e depois soprar sobre elas para que estas sejam abençoadas. São praticas estranhas à Palavra e que induzem ao erro.

3 – As práticas exaradas na reportagem mostram como as lideranças desconhecem a obra do Espírito Santo. Tudo que ocorre no meio neopentecostal, por mais estranho que pareça e mais absurdo possível, é atribuído ao Espírito Santo. Não estou dizendo que o Espírito de Deus tenha que ser formatado dentro de nossos padrões culturais, doutrinários e sociais, mas é preciso um retorno a Palavra e à teologia para sabermos que essas práticas evidenciadas na reportagem são anti-bíblicas. O Espírito Santo não age desconhecendo a revelação que Ele próprio nos proporcionou através das Escrituras Sagradas. A finalidade do Espírito Santo é nos revelar a suficiência de Cristo, a magnitude de Cristo como Senhor e Salvador e nunca emagrecer pessoas. Quando lideranças desconhecem os ensinos sobre a Pessoa e a Obra do Espírito, passam a se basear em achismos e sentimentos que nada honram a Cristo, somente trazem o escárnio do mundo.

4 – Uma falta de conhecimento de Bibliologia e uma apropriação indevida de exemplos do Antigo Testamento são as marcas de igrejas imaturas e fracas. Tais comunidades estão cheias não porque possuem um ensino sólido e relevante, mas por apelam para as emoções e contam com o despreparo de seus membros doutrinariamente.

As práticas da reportagem mostram que tais líderes desconhecem que a revelação de Deus é proposicional e progressiva. Paulo nos alerta na carta aos Coríntios que o que aconteceu com o povo de Israel foi para nosso proveito e que precisamos ver estes exemplos e não errarmos como eles erraram. Não podemos buscar exemplos no Antigo Testamento e aplicá-los agora com todos seus detalhes como se mais 4000 anos de história nada significassem. A tão falada unção de Manassés (ou hoje em dia: unção do esquecimento) está baseada em Gn. 41:51 “E chamou José ao primogênito Manassés, porque disse: Deus me fez esquecer de todo o meu trabalho, e de toda a casa de meu pai”. Veja que atrocidade tais líderes cometem contra a Palavra. José ao dar o nome de Manassés a um de seus filhos somente expressava o favor de Deus. Deus o havia feito esquecer seus dias de amargura e tristeza e mesmo as decepções com a casa de seu pai. Esquecer aqui no texto de Gênesis segundo Von Rad, pode significar não tanto que ele esquecera a sua família anterior, com que agora seu filho preencheria o vácuo atormentador de seu coração. Também pode significar que José queria esquecer completamente seu passado e o escritor de Gênesis mostra a fraqueza do comportamento de José. Parece que José não seguia a trilha correta, pois, ao assumir o poder no Egito não faz nenhuma menção à sua família. A chegada de seus irmãos serviu como uma oportunidade de José resgatar seu passado que ele corria o perigo de perder.

Vale lembrar que nosso passado nunca vai ser apagado de nossas mentes. Enquanto vivermos ele nos acompanhará e servirá de base para nossas experiências presentes. Orar para que Deus nos faça esquecer nosso passado é um contrassenso. Nossas experiências passadas devem servir como base para nosso futuro. Corrigimos erros e sedimentamos acertos, mas esquecer somente o que de ruim aconteceu é algo antinatural e estranho ao processo de viver. Para mim essas unções exóticas em nome de Deus somente significam embustes e subterfúgios para tirar dinheiro do povo despercebido.

5 – Por último destaco a total inadimplência dos líderes que presenciam estas aberrações nada dizem. Acham que ficando calados as coisas não piorarão. Lembro aos colegas da cidade de Valadares que o mal impetrado por lideranças tacanhas chegarão às suas igrejas e que o estrago feito chegará ao ponto de não ter mais conserto. Parafraseando Martin Luther King o que me incomoda não são as aberrações de homens sagazes, mas o silêncio dos homens de Deus. Este silêncio presta um desserviço ao Reino de Deus. Esse silêncio aponta para a conivência com tais aberrações. É chegada a hora de agir e reagir a tais comportamentos. Tais ações e reações não significam dividir o Reino, mas denunciar as trevas.

Que seja desfraldado o estandarte da verdadeira igreja do Senhor Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria.

Pr. Luiz Fernando R. de Souza

16 setembro 2011

LIVRO - OSSO DOS MEUS OSSOS/CARNE DA MINHA CARNE

Já está disponível a 3a. edição do livro do livro OSSO DOS MEUS OSSOS CARNE DA MINHA CARNE.
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13 setembro 2011

PRÁTICAS MUNDANAS NÃO DINAMIZAM A IGREJA


Tenho visto e ouvido falar da introdução de práticas mundanas nos cultos como forma de diferenciação e inovação. Práticas nunca antes imaginadas e acalentadas pelos cristãos entram pela porta da frente das igrejas e encontram abrigo na mentalidade infantil e distorcida de muitos líderes. Vi um vídeo onde um grupo de capoeira se apresenta no meio de um culto e ali foram praticadas seus rituais e danças como se fosse em uma praça pública. Tudo isso em nome do diferente e do inovador. Perguntei-me o porque daquilo tudo. Não consegui respostas minimamente razoáveis. A prática de qualquer esporte nada conflita com o culto a Deus, mas introduzir isto em um culto no mínimo é anular o culto. Esses acréscimos que em outros lugares de culto chegam a contar com lutas diversas antes do culto e etc. demonstram a falência da igreja gospel. A verdeira igreja não se submete a isso.
Ao nos convencermos que algo precisa mudar dentro da igreja e este algo não está claro para nós, tentamos de todas as formas apresentar alguma alternativa ao status quo reinante. Essa mudança precisa vir de qualquer maneira, pois, existe a convicção ou sensação que algo está errado e precisa mudar. Muitas vezes a mudança que tanto almejamos para a igreja deveria começar dentro de nós mesmos. Normalmente o homem sempre vai transferir para outrem sua angústia existencial ou seu desassossego interior. Ao invés de tomar a auto responsabilidade como padrão de vida e dar novos rumos à sua existência, vai achando culpados para suas crises pessoais, como fez Adão no paraíso quando Deus o interpelou e ele não tendo respostas jogou para Eva a responsabilidade da crise instalada. Daí vivenciarmos coisas desagradáveis e inúteis em nome de Deus como se tudo fosse normal.

Um dos lemas posteriores da Reforma Protestante foi: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (Igreja Reformada Sempre se Reformando). Verdade que precisamos desesperadamente resgatar e viver em nossos dias. Para muitos reformar a igreja implica em afrouxar a teologia, desprezar a doutrina e introduzir novos elementos na liturgia. Entendem que uma igreja que se reforma deve ser criativa, no sentido de ser bastante aberta nas questões doutrinária, metodológica e cúltica. Tentam trazer vida para um sistema moribundo através de coreografias, misticismos exacerbados e comportamentos limítrofes com o paganismo, como se isso provocasse a reforma necessária. O grande equívoco nesta forma de pensamento e comportamento é que quando esta máxima “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est”, de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676) e já vivida por Lutero nos primórdios da Reforma em 1517, não tinha a intensão de inovar a maneira de ser, haja vista, os excessos de inovações introduzidos pela igreja romana ao longo dos séculos, culminando nas vendas de indulgências e relíquias, coisas que Lutero lutou para extirpar da igreja. Na realidade Lutero percebeu que reformar não era inovar a sua teologia ou a sua liturgia, mas sim, restaurar e redescobrir aquilo que havia se perdido ao longo de mais de 1000 anos de história chamado erroneamente idade das trevas, quando a Bíblia já havia deixado de ser o fundamento doutrinário da igreja e prevaleciam as tradições resultantes das decisões dos concílios e interesses financeiros e políticos dos papas. Logo, o resultado da Reforma Protestante no século XVI não foi um movimento inovador, mas restaurador, purificador, esterilizante, um retorno às origens, um retorno à Palavra de Deus, uma busca incessante pela simplicidade bíblica, que hoje em dia desapareceu de nosso meio.

Por vezes, o lema supracitado tem sido usado de maneira equivocada e totalmente desvirtuada. Muitos o utilizam como pretexto para introduzir novidades, modismos e ideias politicamente corretas na igreja. Aqui, volto a repetir, estar sempre se reformando não é sempre inovando ou buscando incessantemente criatividade. Isso é próprio dos meios de comunicações que precisam diversificar constantemente para não perder seu publico. Ao nos conformarmos com a mentalidade do mundo teremos como corolário um afrouxamento litúrgico, teológico e abriremos as portas para o mundanismo. Estar sempre se reformando é buscar continuamente o retorno ao cristianismo bíblico e básico, reafirmando as doutrinas e práticas das Escrituras Sagradas.

Creio que esta busca alucinada pelo novo e inovador tem levado a igreja esquecer que seu poder dinamizador não está no desconstrutivismo litúrgico ou teológico, na introdução de praticas exóticas como meio de atrair ou descontrair uma plateia, mas na dinâmica do Espirito Santo. Este Espirito dinamizador é que quebra a monotonia da religiosidade, expulsa o mundanismo da igreja e a enche e vida. Esse Espirito que provoca ações e reações dignas de Deus e para louvor de Sua glória. É esse Espírito Santo que abre as comportas interiores para fluírem os rios de águas vivas.

Sim, o lema “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” está vivo e pede passagem. Ele clama por ser vivido pelo povo de Deus. Desafia-nos a redescobrimos e vivermos a simplicidade e pureza das Escrituras Sagradas no poder do Espírito. Assim sendo, experimentaremos novidade vida. Nossos cultos não serão monótonos. Nossas orações serão arrebatadoras. A pregação da Palavra será o centro de nossos cultos. E no final de tudo Soli Deo Gloria.

Soli Deo Gloria

Pr. Luiz Fernando R. de Souza

07 setembro 2011

O MEIO E A MENSAGEM



Na sua ênfase exagerada na adaptação do Evangelho à cultura, que tipo de cristão os cultos contemporâneos geram?

Imagine a cena: num amplo auditório repleto de pessoas, a banda prepara-se para se apresentar no palco. Luzes de todos os tipos, efeitos visuais controlados por computador e sistema de som de última geração trazem ao espaço um ambiente feérico. Logo nos primeiros acordes, o público praticamente vai ao delírio, com gritos de entusiasmo e movimentos ao som da música. Ao visitante desavisado, apenas as letras das canções, exibidas em telões de muitas polegadas, denunciam o caráter do evento: versos como “grande Deus” e “poderoso Senhor” não deixam dúvidas de que aquele é um culto evangélico. No entanto, o comportamento dos frequentadores pouco difere daquele das plateias de shows seculares – embora entoem as músicas a plenos pulmões, as centenas de jovens da congregação comportam-se de modo superficial em relação a tudo que acontece no palco. Assim como na maioria das formas de entretenimento, os membros agem como espectadores passivos, participando apenas de maneira extremamente subjetivo.

O desempenho musical é extraordinário, ainda que o vocabulário das canções seja extremamente limitado. Se as músicas apresentadas têm por objetivo criar uma reação emocional, pode-se dizer que o sucesso é absoluto. Porém, como frequentemente se tem falado sobre o louvor contemporâneo, faltava nas composições um elemento de ensino com conteúdo. Imediatamente após as músicas, sem qualquer esclarecimento quanto ao significado do ato ou menção às palavras de Paulo sobre a ceia do Senhor em I Coríntios 11.23-26, os elementos são rapidamente servidos. Uma vez mais, impressiona a discreta eficiência dessa atividade. Seria possível passar salgadinhose refrigerantes da mesma maneira e com igual rapidez com que são distribuídos o pão e o suco de uva. Não há qualquer instrução sobre o compartilhamento desse importante sacramento. A comunhão parecia limitar-se a um relacionamento estritamente vertical. A coisa ficava entre cada indivíduo e Deus.

Em seguida vem o sermão, proferido por uma pessoa muito capaz, que procurou com afinco estabelecer relações práticas enquanto ensinava alguns princípios bíblicos. Um esboço simples aparece na tela, a fim de que os interessados pudessem seguir a linha de pensamento. O mesmo ocorre com as passagens bíblicas – todas exibidas no telão, como se ninguém conseguisse encontrá-las numa Bíblia de verdade. Dava para perceber, sem muito esforço de memória, que as ilustrações citadas vinham de filmes populares e da televisão. Então, o culto terminou tão repentinamente quanto havia começado, com alguns anúncios sendo divulgados pelas caixas de som e um polido “obrigado” à congregação. Nenhuma bênção ou oração de encerramento foi feita. Simplesmente, não havia quem a ministrasse. Então, as luzes, que permaneceram numa penumbra por todo o culto, são acesas. Era hora de ir embora.

É claro que nem todas as grandes igrejas contemporâneas fazem coisas semelhantes. Porém, a quantidade de comunidades que adotam este modelo eclesiológico é motivo suficiente para levar pastores, líderes e crentes à reflexão. Dizer que o culto foi “popularizado” do ponto de vista religioso não é necessariamente correto. Na verdade, seria bom se fosse o caso, uma vez que uma compreensão fácil às vezes exige que ideias complexas sejam simplificadas. No entanto, esse tipo de forma litúrgica busca encontrar um denominador cultural e teológico comum, visando atrair e envolver o maior número de pessoas. E, como resultado, não era é preciso ser cristão para entender a maior parte do que foi dito ou cantado.

Se isso for verdade, é algo que devemos questionar. Enquanto lideranças de igrejas corretamente querem que os cultos de domingo sejam acessíveis a todo tipo de público, com certeza deve haver aspectos de uma adoração cristã nos quais somente crentes em Jesus são capazes de participar conscientemente, uma vez que a adoração é, em parte, o alimento e a afirmação de sua fé. Uma crítica recorrente 20 anos atrás era de que as igrejas desconsideravam os visitantes não-cristãos utilizando muito jargão essencialmente evangélico. Era uma crítica legítima. Porém, agora parece que a vontade de acomodar a cultura forçou as igrejas a cometerem o erro oposto. Teria o desejo por inclusão iludido as igrejas, levando-as a supor que particularidades doutrinárias ou litúrgicas ameaçariam sua missão num mundo religiosamente diversificado?

CULTO DE INICIADOS

As igrejas apostólicas e pós-apostólicas – aquelas mais próximas da época do Novo Testamento – adotaram uma abordagem diferente. À imagem do tabernáculo do Antigo Testamento, a igreja era onde os cristãos encontravam o “Santo dos Santos”. Assim, era razoável que a adoração não fosse aberta a todos. Já as igrejas dos séculos 4 e 5 observavam a disciplina arcana (a regra ou prática do sigilo) em relação aos encontros de adoração. Agiam assim, principalmente, para garantir que apenas os cristãos batizados partilhassem a ceia do Senhor e confessassem o credo da igreja. Hipólito, teólogo do terceiro século, mantinha uma lista de vícios e declarações que desqualificariam alguém para o batismo. Em um grande número de igrejas, os não-batizados, mesmo catecúmenos em preparação para o batismo, eram expulsos antes que a igreja celebrasse a Eucaristia e confessasse o credo.

Naturalmente, não tem cabimento uma igreja, hoje, expulsar um não-iniciado do meio da adoração. Contudo, especialmente nos primeiros séculos, as “boas-vindas” da igreja para o mundo eram temperadas com salvaguardas exclusivistas em relação à identidade e integridade. O exemplo das precauções da Igreja primitiva contra fazer uso de pérolas do Evangelho promiscuamente fez com que esses tesouros caíssem em mãos despreparadas. As palavras de Jesus são claras: “Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos” (Mateus 7.6). Falhar em preservar a singularidade dos símbolos, visões e compromissos cristãos compromete tanto o significado quanto a santidade da vida da igreja. Longe de quaisquer arrogâncias ou elitismos espirituais, essa é uma parte crucial da mensagem do Evangelho.

Gregório de Nissa afirmou com propriedade que “teologia não é para qualquer um” (sermão 29). Por “teologia” ele quis dizer a criação de uma espiritualidade única, centrada em Cristo, que aos poucos transforma a mente e o coração, e na qual “profundezas falam às profundezas”. Em dado momento, o estilo de apresentação afeta a substância da identidade e ensino cristãos, frequentemente deixando sem corte suas pontas afiadas.

Quem testemunha um momento de adoração contemporânea não pode deixar de ser agradecido a Deus por ver uma igreja lotada e muito ativa. Não há dúvidas, no entanto, de que, neste tipo de contexto, muitos são atraídos mais pelas programações para jovens ou pela boa música do que pelos ministérios de discipulado ou pela ênfase no trabalho de missões. A pergunta que fica é inquietante: a que custo as modernas congregações têm se adaptado à cultura contemporânea? É claro que, através da história, a Igreja sempre tentou se acomodar à cultura de sua época, buscando dar um testemunho efetivo. Talvez não haja nada inédito na mega-igreja moderna – a não ser o fato de ela elaborar métodos para facilitar essa acomodação. De fato, o método tem se tornado muito importante para essas congregações. O brilho da adoração moderna compete com os efeitos especiais e sonoros dos mais modernos filmes. O argumento segue na linha de que as igrejas não deveriam ser avessas ao uso de técnicas visuais seculares utilizadas no entretenimento popular. Dizem que uma representação artística e dramática do sagrado se comunica bem com as gerações mais jovens.

Nesse processo, entretanto, parece que as igrejas dão muita atenção a pequenos intervalos de tempo e se empenham em estimular picos emocionais durante seus cultos. Ao invés de facilitar um encontro com o verdadeiro Deus, os próprios métodos de entretenimento passam a ser o foco preponderante. Em dado momento, o estilo de apresentação afeta a substância da identidade e ensino cristãos. Não é por acaso que muitas igrejas contemporâneas oferecem uma pesada dieta de imagens e metáforas bíblicas, deixando de lado a real teologia escriturística.

ÊNFASE NA ATRAÇÃO

Apesar de a estética nunca ser meramente estética, a pessoa comum pode muito bem ignorar a mensagem, ou pior, ficar confusa por causa dela. Uma grande preocupação em adaptar a mensagem a estilos pessoais pode facilmente resultar numa adaptação da fé às necessidades pessoais dos ouvintes. Ao invés de permitir que o Evangelho nos desafie, alteramos a fé histórica para o rumo das correntes do nosso tempo. Sendo honestos, muitos líderes de adoração contemporâneos reconhecem essa tentação.

Como o cristão poderia reconhecer quando esse processo já foi longe demais? Quando é que a missão cristã está irremediavelmente comprometida pela vontade de tornar a Palavra de Deus relevante para as situações contemporâneas? Essas não são questões que possuem respostas simples. Porém, dada a postura avessa ao tradicionalismo de muitas igrejas contemporâneas – muitas das quais abandonaram elementos confessionais ou teológicos em favor da relevância –, é difícil ver o que irá lhes ajudar a preservar o cristianismo ortodoxo por muito tempo. Não menos desconcertante é ver como nossa cultura consumista se infiltrou em muitas igrejas, criando um ambiente igual ao de um shopping, marcado por brilho e mensagens simplistas. Quando a igreja se torna essencialmente um fornecedor de bens e serviços religiosos, ela reforça os hábitos consumistas do próprio cristão, permitindo-o escolher produtos conforme gosto e funcionalidade.

Absorvendo da atmosfera cultural essa mania por escolhas ilimitadas, igrejas criam os programas mais diversos possíveis, buscando acomodar a maior diversidade de cristãos possível. Ironicamente, a importância dada à experiência pessoal e à liberdade das crenças tradicionais é remanescente do protestantismo liberal do começo do século 20. Atualizando sua teologia para a visão moderna, os herdeiros de Schleiermacher e Hegel enfatizavam a primazia da experiência individual com Deus, deixando de lado questões complicadas de doutrina e colocando-as como divisores, um autoritarismo latente ou, simplesmente, irrelevante. Apesar das muitas diferenças entre esse tipo de liberalismo e a mega-igreja evangélica contemporânea, existem semelhanças gritantes em suas abordagens com relação à experiência individual, à cultura popular e doutrinas incômodas.

No entanto, a grande questão perdura: em que direção essas igrejas estão levando seus membros? Que tipo de cristianismo irá surgir de uma ênfase exagerada na tentativa de atrair qualquer um, por qualquer razão? Quando o apóstolo Paulo se tornou “tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns”, conforme sua descrição de si mesmo em I Coríntios 9.22, sua estratégia não evoluiu no sentido de reinventar ou reorientar a fé – até porque ele mesmo também disse que primeiramente transmitiu o que recebeu (I Coríntios 15.3). O tipo de transformação que Paulo experimentou e tentou criar na Igreja primitiva baseava-se numa tradição que tornava a fé, a esperança e o amor cristão pontos de partida para o crescimento do crente. Portanto, se a nossa era pós-denominacional (ou pós-protestante) continuar a elevar a liberdade pessoal de escolha, a estabilidade da sabedoria histórica da Igreja será desesperadamente necessária.

Pelo menos, técnicas espalhafatosas de muitas igrejas modernas nunca substituirão adequadamente o trabalho duro de cristãos que ensinam a adquirir a vida divina do Pai, pelo Filho, por meio do Espírito Santo. Esse tipo de vida pode significar, para muitos, o sacrifício de certos prazeres da antiga e a renúncia a determinados elementos da cultura ocidental. E a igreja que alimenta isso deve ter como objetivo renegar a mera inclusão. (Tradução: Fernando Cristófalo)

Daniel H. Williams é professor de religião em teologia patrística e histórica da Universidade de Baylor (EUA)

Fonte: CristianismoHoje

Soli Deo Gloria

Pr. Luiz Fernando R. de Souza